O impacto da AIDS nos estudos sobre sexualidade começa
pela sua desvinculação exclusiva a um problema médico-epidemiológico,
e a sua associação a um fenômeno social. Dessa forma,
procurou-se investigar o impacto da AIDS em questões tratadas
em estudos de sexualidade, tais como homossexualismo, gênero e
práticas sexuais. Com a epidemia houve um incremento das pesquisas
sobre sexualidade com vista a descobrir formas de prevenção
da doença. Vinculada aos estudos de sexualidade, a descoberta
da AIDS propiciou uma certa “descoberta” do homossexualismo.
Inicialmente, a homossexualidade foi associada negativamente à
doença. Com o passar do tempo, o acúmulo de pesquisas
a respeito do tema e a presença ostensiva dele na mídia,
a opção sexual se transformou em assunto de discussão
no senso comum. Além disso, foram realizados estudos para verificar
como a doença incidia na construção de gênero.
O início da década de oitenta marcou a descoberta da
AIDS. Nesse momento ela foi fortemente associada, pelo senso comum,
como sendo uma doença transmitida por homossexuais. No Brasil,
o contexto social era de abertura política. Embora ainda pouco
expressivos, os espaços e estilos de vida homossexuais recém
iam tomando forma. Eles ainda não estavam tão consolidados
como nos Estados Unidos ou na Europa. A “chegada” da AIDS
no Brasil impulsionou a criação e consolidação
dos movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais. A partir de
então, a AIDS foi se colocando como um marco pelo qual giravam
os estudos sobre sexualidade. Em busca da prevenção da
epidemia, as ciências humanas começaram a lidar com a heterogeneidade
do homossexualismo. Ao invés de tratá-lo de modo homogeneizado,
os pesquisadores lidavam com a diversidade de práticas homossexuais
e formas possíveis de prevenção da doença.
O resultado foi a "descoberta" de vários grupos (gays,
lésbicas, travestis...) cada qual reivindicando seus direitos
e espaço na sociedade.
Diante da AIDS também foi possível observar aspectos
da construção de gênero e orientação
do comportamento sexual. Existem comportamentos diferentes em relação
à doença dependendo da variável sexo – masculino
ou feminino. Nesse caso, a resistência masculina em aceitar a
doença estava atrelada, também, ao estigma de ter sido
inicialmente associada a uma “epidemia homossexual”. E ainda,
a discussão a respeito das relações extra conjugais
ganhou espaço. Isso foi decorrente da orientação
da necessidade de se utilizar preservativo mesmo em uma relação
"estável". Também podemos perceber um incremento
da discussão a respeito da iniciação sexual de
jovens. O tema ganhou espaço na mídia, especialmente em
campanhas orientando a utilização de preservativos.
A partir da AIDS coexistem vários níveis de percepção
da realidade. Eles variam, por exemplo, entre estigma, poder, espaço
social, vida, morte, gênero, homo e heterossexualidade, e assim
por diante. A percepção da epidemia envolveu uma série
de fatores culturais e sociais. Tivemos uma relação estreita
entre produção de conhecimento científico e intervenção
na doença, um incidindo sobre o outro. Teoricamente, além
de ser tratado como um fenômeno social, procurou-se perceber o
impacto da AIDS no nível simbólico da realidade social.
As transformações trazidas pela doença reforçaram
a idéia de que a sexualidade é resultado de uma construção
e está sujeita à modificações. Metodologicamente,
os grupos organizados a partir da questão da AIDS constituíram
um campo de estudos sobre a sexualidade humana.
Jonatas Dornelles
Antropólogo |