Verão! Época de, entre outras coisas, biquíni.
Pequenos, grandes, coloridos e de diversos materiais. Onde haja água,
lá estão os biquínis: praia, piscina, rio, lagoa...
E vendo tantos, somos seduzidos a pensar um pouco nessa pequena, mas
extremamente simbólica, vestimenta feminina.
O que é um biquíni? É uma roupa de banho feminina
formada por duas peças. Uma delas é utilizada para cobrir
os seios. A outra é utilizada para cobrir a púbis e (um
pouco) da nádega. A história mais recente nos conta que
ele foi, nos últimos cem anos, gradativamente reduzindo o seu
tamanho. Não é a intenção aqui entrar na
questão evolutiva dessa peça de vestuário. Nem
tratar de diferenças regionais, tais como as que fazem com que
os biquínis norte americanos sejam maiores que os brasileiros.
Vamos nos centrar no momento presente, independentemente de onde estejamos.
O leitor mais realista talvez logo pense: o biquíni é
a mesma coisa que uma calcinha e sutiã, só que de lycra.
Vamos nos apegar ao pensamento desse suposto leitor para desenvolver
um raciocínio a respeito da sensualidade e do erotismo.
As "boas maneiras" ocidentais ditam que as peças íntimas
do vestuário feminino devam ser escondidas. Claro, nada tão
rigoroso como em certas culturas orientais nas quais as mulheres não
mostram nem o rosto. Aliás, nem um pouco rigoroso. Hoje em dia,
principalmente entre as jovens, é comum ver aparecer alças
de sutiã e cós de calcinhas. Em alguns casos, as roupas
um tanto transparentes e em tons claros, levam o observador a ter "visão
de super-homem" e a enxergar através da roupa da mulher.
Saias curtas também revelam, em momentos de descuido, a cor da
calcinha. Os homens são cultural e tacitamente ensinados a sentir,
nessas ocasiões, um pouco de sedução, sensualidade
e até mesmo erotismo. Esse sentimento pode variar entre os mais
moderados até os mais fortes. Não vamos entrar nesse assunto,
ficaremos no biquíni.
O leitor concordará comigo que seria um absurdo, talvez atentado
ao pudor, uma mulher utilizar calcinha e sutiã para, por exemplo,
tomar banho de sol na areia da praia. Mas por que isso? Muitas vezes,
tanto biquíni quanto calcinha e sutiã, possuem o mesmo
tamanho. Em alguns casos, o material de um é utilizado na confecção
do outro. Então pergunto: por que, por exemplo, perceber em um
descuido a cor da calcinha da mulher gera um sentimento de sensualidade
(e, talvez, erotismo), o mesmo não acontecendo na situação
da praia, em que a mulher veste biquíni? Se houvesse um "grau
de nudez", na praia a mulher está muito mais nua. Esse fator
isolado não garante a sensualidade e o erotismo da maneira como
está sendo discutido aqui. Biquínis "minúsculos"
são permitidos em área pública. O mesmo não
acontece com calcinhas e sutiãs, mesmo sendo "enormes".
Da breve argumentação trazida aqui, somos levados a refletir
que sensualidade e erotismo não dependem estritamente de fatores
objetivos, tais como "grau de nudez". Existem diversos simbolismos
envolvidos que fazem com que determinadas situações sejam
sensuais. Uma mulher de biquíni na praia é uma situação
normal. O mesmo não acontecendo com um mulher de calcinha e sutiã,
mesmo que o tamanho e o material sejam os mesmos. O primeiro é
uma "roupa de banho". O segundo é uma "roupa íntima".
Sendo que os indivíduos enxergam no primeiro um determinado tipo
de vestimenta e no segundo, um outro tipo. Mas o biquíni não
é soberano. Possivelmente seria uma situação muito
estranha uma mulher andando de biquíni pelas ruas da cidade (longe
da praia). E isso nunca acontece? Claro que acontece. Nas noites de
carnaval e próximo ao local de desfile das escolas de samba isso
é muito comum, já que várias fantasias são
elaboradas tendo como base esse vestuário. Então por que
tal variação?
Os seres humanos, vivendo sob a égide da cultura, enxergam o
mundo simbolicamente (sendo que isso os torna diferente dos animais).
Tanto vestimenta, quanto espaço e tempo são percebidos
de modo simbólico. Isso significa que, por exemplo, pode haver
um biquíni igualzinho a um conjunto de calcinha e sutiã,
mas o primeiro se usa na praia, e o segundo por baixo da roupa. O primeiro
se usa no espaço da praia e não pelas ruas da cidade.
A não ser que seja em um determinado tempo. Nesse caso, no "tempo"
do carnaval. Seios a mostra em um desfile de carnaval pode parecer muito
natural, o mesmo não acontecendo em uma praia. Dependendo da
praia.
Se quiséssemos concluir, diríamos que sensualidade e
erotismo são construídos culturalmente e, entre outras
diversas situações, surgem em momentos de discrepância.
Por exemplo, uma mulher usando uma saia e uma blusa com um decote ousado,
em um ambiente formal, parecerá sensual, mas inadequado (aos
mais conservadores). A mesma roupa também será inadequada
no ambiente de praia (mas não às coreanas, que costumavam
ir à praia vestidas "socialmente"). Mostrar um "pedacinho"
da calcinha ou do sutiã é aceitável. Mas a mulher
que ficar de roupa de baixo na praia encontrará problemas!
Obs.: As mulheres, principalmente as feministas, me desculpem pelo
ponto de vista, por vezes, um tanto andrógeno. O termo "leitor"
refere-se tanto a homens quanto mulheres, como no inglês "reader",
independentemente de gênero.
Jonatas Dornelles,
Antropólogo
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