História do Incesto na Mitologia

 

A atividade sexual entre membros de uma mesma família é chamada “incesto”. Pesquisas cuidadosas têm revelado que o incesto, dentre todas as proibições ligadas à sexualidade humana, é a que mais preocupa cada indivíduo, povo ou cultura, nas diversas épocas da história da humanidade. Em praticamente todas as culturas ou civilizações, o comportamento incestuoso tem sido considerado uma ameaça social e, por isso, intensamente proibido.

Muitas sociedades aceitam o homossexualismo, o sexo entre adultos e crianças, o travestismo, o transexualismo ou as relações com animais. No entanto, os contatos sexuais entre parentes muito próximos são estritamente proibidos. Mas, apesar de constituir tabu, o incesto é um tema que aparece com relativa freqüência na mitologia, no folclore, na literatura e na história da humanidade.

As penas previstas no Antigo Testamento pela prática do incesto eram extremamente severas, consistindo, em geral, na morte pela fogueira, em praça pública. O tema do incesto também foi explorado pela literatura de todos os tempos. A obra mais conhecida nesse sentido é a peça Edipo Rei, do dramaturgo grego Sófocles (495 a.C. — 406 a.C.). A peça apresenta a tragédia de Édipo, um homem que, perseguido pela fatalidade do destino, mata seu pai, Laio, e casa com sua mãe, Jocasta.

Eurípides (484 a.C. — 406 a.C.), outro autor grego, também utilizou o tema do incesto em pelo menos duas de suas obras: Electra (413 a.C.) e Hipólito (428 a.C.). A primeira é a lenda de uma mulher, Electra, que incita o irmão, Orestes, a vingar o assassinato de seu pai, Agamenon, cometido por sua mãe, Clitemnestra. Torturada pela culpa, depois que Orestes mata sua mãe, de quem ele era amante, Electra enlouquece.

Na segunda obra, Eurípides narra a paixão de Fedra por seu enteado, Hipólito. Segundo essa lenda, Teseu, rei de Atenas, retorna com sua nova esposa, Fedra, para a cidade onde Hipólito, o filho que tivera com sua primeira esposa, Antíopa, cresceu e se tornou um belo rapaz. Fedra se apaixona pelo enteado mas, repudiada por ele, suicida-se, deixando uma carta para Teseu, na qual acusa falsamente Hipólito de tê-la violentado.

Este morre quando um monstro marinho assusta os cavalos de sua carruagem, fazendo-o precipitar-se no abismo. A tragédia termina com Teseu morrendo após descobrir, tardiamente, a inocência do filho. A expressão “complexo de Fedra” (decorrente da peça de Eurípides) tem sido usada para designar qualquer atração amorosa intensa entre padrastos ou madrastas e enteados.

Em 1900, Freud afirmou que havia uma grande analogia entre essas lendas gregas e certas fantasias normalmente desenvolvidas por crianças de dois anos e meio a seis anos. Por meio de tais fantasias, as crianças do sexo masculino manifestariam um grande apego à mãe e, simultaneamente, ciúme contra o pai.

Já as crianças do sexo feminino evidenciariam intenso apego ao pai e, ao mesmo tempo, ciúme contra a mãe. Durante algum tempo, a expressão “complexo de Electra”, cunhada por Carl Gustav Jung (1875-1961), foi utilizada para designar a situação edipiana referente à atração entre filha e pai. Essa expressão caiu, no entanto, em desuso.

Jonatas Dornelles
Antropólogo

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