História da Normalidade Sexual Humana

 

Uma breve revisão da história da sexualidade humana mostra como os conceitos de “normalidade” ou “anormalidade” sexual variam ao longo dos séculos. No início do feudalismo as noivas eram geralmente defloradas pelo senhor feudal, com base num princípio por ele estabelecido, conhecido como jus primae noctis (direito à primeira noite). Quem aceitaria hoje esse “direito”?

O sentimento de culpa associado ao comportamento sexual só passou a constituir uma característica marcante da cultura ocidental, a partir do momento em que a Igreja Medieval ampliou sua influência sobre os povos da Europa. Até então, a sexualidade aberta e franca era a regra. Ao exaltar a virgindade e o celibato, a Igreja modificou radicalmente os valores morais referentes ao comportamento sexual: aprovou o coito unicamente com fins reprodutivos e condenou qualquer outra forma de atividade erótica.

Também se estabeleceram nesse período rigorosas restrições contra o aborto, contrariamente ao que ocorria entre os antigos gregos, romanos e judeus. Em determinadas épocas, as condenações por parte de setores excessivamente rígidos e moralistas da Igreja chegaram a atingir as próprias relações sexuais entre pessoas regularmente casadas.

Uma delas determinava que os casados suspendessem as atividades sexuais aos domingos, quartas e sextas-feiras, assim como no período de quarenta dias antes da Páscoa e do Natal. A prática de relações sexuais durante o período de gravidez e nos quarenta dias que se seguissem ao parto também era considerada como “pecaminosa”.

No entanto, à medida que cruéis penalidades passaram a forçar os indivíduos a se manterem dentro dos estreitos limites permitidos pela moral medieval, uma verdadeira epidemia de fenômenos sexuais anormais começou a predominar: “possessões” histéricas por demônios e feiticeiras, delírios sexuais, falsas gestações, autoflagelação para fugir às tentações e outras manifestações de uma sexualidade reprimida.

Em contraste com esse regime de repressão sexual, existia a situação de povos em que as manifestações eróticas eram, ou ainda são, livremente permitidas, como os antigos gregos, os próprios europeus antes da Idade Média e muitos povos primitivos de hoje. Mesmo a homossexualidade dos antigos gregos não constituía propriamente um desvio.

Ora, ela fazia parte de um padrão de bissexualidade, no qual os sentimentos homossexuais eram considerados tão naturais quanto os heterossexuais. Sendo assim, os conceitos de comportamento sexual “normal” e “anormal” não podem ser separados do sistema de valores morais de uma determinada sociedade.

Como esses valores estão em contínuo processo de mudança, devemos estar preparados para a possibilidade de que alguns dos padrões atualmente considerados anormais, não sejam assim encarados no futuro. Os padrões de poligamia são geralmente condicionados por fatores econômicos, por exemplo. Mesmo nas sociedades que permitem as uniões múltiplas, somente as pessoas abastadas podem ser polígamas, e a monogamia, embora não obrigatória, é geralmente o sistema mais adotado.

As normas que regulam as relações pré-matrimoniais e extramatrimoniais também variam em diferentes culturas. Há numerosas sociedades em que as relações extramatrimoniais não apenas são toleradas como esperadas, sem que haja condenação. Emprestar suas mulheres aos visitantes é um costume não só aceito como até mesmo encorajado entre os esquimós, que se ofendem quando recusam seu oferecimento.

Jonatas Dornelles
Antropólogo

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