O Matrimônio no Antigo Testamento

 

O casamento de Abraão foi uma mescla de poligamia e mo­nogamia. Ele tinha servas e aias, mas ao mesmo tempo levava uma vida conjugal monogâmica com Sara. Ela era estéril e sentia ciúmes das mulheres que cercavam Abraão e com ele tiveram filhos, principalmente daquelas cujos filhos eram do sexo masculino.

A principal vítima de seus ciúmes foi uma con­cubina chamada Agar. Ela era mãe de um filho herdeiro de Abraão. Seu filho parece ter sofrido muito com esses ciúmes. Abraão era o patriarca e amou muito a Agar, se orgulhando do filho: Ismael. Apesar disso, acabou sucumbindo ante a con­tínua insistência de Sara e mandou Agar com seu filho ao deserto.

O casamento de Jacó – neto de Abraão – com Raquel, trouxe novamente uma série de problemas conjugais: esterilidade, ciúmes, morte prema­tura da companheira e luta com o sogro. Jacó viu Raquel junto a uma fonte e apaixonou-se por ela. O pai exigiu que ele trabalhesse pa­ra obtê-la. Ele o fez e passados os “sete anos”, foi marcado o casamento.

Labão era um pai típico e não queria que a irmã mais velha e mais feia ficasse para solteirona. Sob a proteção do véu nupcial foi dado a Jacó a irmã errada. De noite, na câmara nupcial, ele ergue o véu e tem a surpresa: lhe deram Lia, irmã de Raquel.

Começaram então as desavenças entre sogro e genro. Jacó se enfurece. Mas o sogro, enérgico, obriga-o a trabalhar ou­tros “sete anos” para ele. Somente assim ele teria o direito de tomar Raquel também como esposa. Jacó deve ter sido um trabalhador duro, pois as terras prosperaram depois dos outros “sete anos”.

Caracteriza bem o clima do deserto daquela região a sentença cunhada por Jacó e tor­nada célebre: “De dia suei e à noite tremi de frio por ti”. Chega o ponto em que a situação torna-se insuportável. Saindo Labão em viagem, Jacó toma o gado que lhe cabia, as mulheres juntam suas coisas e vão todos embora.

Como Sara, também Raquel é no início estéril. Ela vive cheia de ciúmes da irmã Lia, que é fértil. Em seu desespero em­prega todos os meios práticos e “mágicos” imagináveis. Final­mente dá à luz um filho de Jacó e morre. Jacó, que no meio tempo teve dez filhos com suas outras mulheres, sente pro­fundamente a perda do seu amor juvenil e constrói a ela um túmulo.

Mais do que todos os outros filhos, Jacó ama o mais novo, que lhe ficara de lembrança de Raquel. Mimou-o provocando assim os ciúmes dos irmãos, que venderam José a beduínos errantes. Assim José chegou ao Egito. Ali foi tra­balhar na casa de um funcionário real, Potifar, cuja esposa tenta seduzir José. Encontramos assim, na Bíblia, o primeiro exemplo de mulher adúltera. O motivo é típico: o marido trabalha demais e a mulher, negligenciada, flerta com um rapaz bonito.

Essa breve história do matrimônio no Antigo Testamento nos traz uma série de aspectos ainda hoje discutidos: ciúmes, esterilidade no casamento, “luta” pelo amor e adultério. O modelo de uniões trazido na Bíblia influenciou o matrimônio no Ocidente Cristão. Ainda hoje nos deparamos com os problemas enfrentados pelos personagens Bíblicos.

Jonatas Dornelles
Antropologista

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